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quarta-feira, 23 de março de 2011

Matar um leão por dia!

Sabia que esta é a sensação de praticamente todos os profissionais liberais? Já ouvi muita gente falando sobre isso e é também a minha experiência como psicoterapeuta.
Tudo tem que ser genial, as sacadas espetaculares, pelo menos um grande insight por sessão.

Só que a vida não é assim. Tem o tempo de semear, esperar crescer, e aí colher.

Acontece que o mercado e as expectativas das pessoas estão tão agigantadas, que ninguém quer mais esperar por nada. Um segundo para entrar o site e já se reclama do provedor, abre o sinal de trânsito e o dedo já está na buzina ... Todos estão lerdos demais para nós.

Eu, com meus "6.0" já aprendi a delícia de ver o tempo passar sem fazer nada. Verdade que aprendi "na marra". Repouso com uma hérnia de disco por 4 meses. Deitada, podia mudar de sofá, de cama, mas tinha que ser deitada, com calor local.

Que tempo maravilhoso! Claro que, à princípio, pareceu uma maldição. Mas... como todos já sabemos, muitas vezes uma maldição é uma benção disfarçada.

Passava horas simplesmente olhando a lagoa na frente da minha casa. Esvaziei minha mente lentamente até começar a me deliciar com os detalhes que antes nunca percebi. Comecei a conhecer o beija-flor que sempre vinha nas flores do canteiro. Recebia amigas no meio da semana, que por pura compaixão, arranjavam um tempinho para um chá com bolachinha. Vi todos os filmes que não tinha tempo para ver e li, li, li... como deve ser. Sem precisar cortar, ler o livro direto e não pedaço por pedaço, onde se perde muito, porque se sai da história.


Final da história:  fui feliz nestes 4 meses. E aprendi que a vida pode ser deliciosa de qualquer maneira, basta não colocarmos um modelo ideal de viver. Poder relaxar de todos os desafios e deixar o ser ter seu próprio ritmo, mostrou-se, inclusive, como o propósito da doença. Amo minha hérnia. Veio para me deixar mais viva, sábia e saudável.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Tudo é uma questão de ponto de vista - Parte II

Ninguém como Escher para exemplificar melhor esta frase... Visitei a exposição dele no CCBB Rio e saí inspiradíssima!





       Em uma crítica ao racionalismo, Escher mostra desenhos perfeitos em seus detalhes mas escondendo truques de perspectiva ilógicos em um desafio à razão, Koans, paradoxos visuais convidando a transcender a mente e os estreitos limites da lógica.
        Incompreendido e isolado, fazendo imagens muito à frente de sua época, Escher cria um universo que esconde uma complexa superpopulação variada e rica como reflexo de seu mundo interior sensível e avançado, racional mas transcendendo os limites da razão.
        Escher demonstra que a arte tem um poder visual de ampliar os horizontes da nossa percepção da realidade, e hoje sua obra é estudada em faculdades de arquitetura e ilustra livros de física teórica.  
 "Se você quer que algo impossível chame a atenção, primeiro você deve convencer a si mesmo e só então o seu público", dizia Escher. "O elemento impossível deve ficar tão disfarçado que um observador desatento nem o perceberá."
Adoramos o caos porque sentimos amor em produzir ordem“, dizia o artista.

Tudo é uma questão de ponto de vista...


     Era uma tarde chuvosa e ficar na praia já não fazia mais sentido. Foi quando então lotamos um carro e partimos rumo a cidade. A motorista era a Lu, ex-mulher do meu padrasto, porque eles sempre se frequentaram. Meu pai também estava naquele carro, assim como o Celso, a Gaia com a babá e o Lucas, nesta configuração pouco provável.
    Eu e o Lucas, com 6 e 4 anos, respectivamente, adorávamos andar no chiqueirinho, aquela parte do porta-malas em que você ainda pode conversar com as pessoas de dentro do carro. Não lembro bem por qual razão, ao nosso lado estava um balde vermelho, cheio de caixas abertas de sabão em pó, daqueles bem azuis. Este era o cheiro predominante dentro da Caravan banheirona, apesar do calor insuportável e do suor de todos.
     O morro era muito íngreme e a estrada tinha muitas pedras. Elas faziam aquele barulhão batendo embaixo do carro. Depois da dificultosa subida, veio a descida... Curvas, mais pedras, mais chacoalho, mais barulho. Então ouvi uma freiada, seguida de uma derrapada, e o meu mundo começou a girar. Os vidros estouravam ao meu lado, eu oscilava entre o teto, o chiqueiro e as esbarradas com o Lucas. 
     O sabão, que antes estava ali paradinho, começou a se espalhar por tudo, como se estivéssemos literalmente dentro de uma máquina de lavar roupas. Uma, duas, três voltas. Bendita da árvore que nos parou, uma arvorezinha de nada, nem 10 cm de diâmentro ela tinha! Graças a Deus, ninguém se machucou gravemente, foram só leves arranhões e pequenos cortes.
      Mas me lembro de me perguntarem, uns anos depois:
--- Alana, como é capotar? Qual é a sensação??
--- Ah, é meio engraçado. A gente vai parar no teto do carro e depois todo mundo fica azul.